Em um ambiente de juros elevados e maior pressão por eficiência na alocação de capital, o seguro garantia tem deixado de ser tratado apenas como uma exigência contratual para se consolidar como instrumento estratégico de gestão financeira nas empresas. A modalidade permite que a organização assegure o cumprimento de obrigações contratuais ou judiciais sem imobilizar recursos em depósitos ou comprometer linhas de crédito, preservando o caixa para investimento e para o financiamento da operação.
O movimento aparece nos números do setor. Em 2025, o ramo de crédito e garantia registrou a maior variação entre os segmentos do mercado segurador brasileiro, com alta de 19,5%, segundo dados do IRB+Inteligência. Considerando apenas o seguro garantia, o prêmio faturado somou R$ 6,29 bilhões no ano, crescimento de 23,88% em relação a 2024, de acordo com números do painel da Susep. As garantias públicas concentraram a maior fatia, com R$ 5,45 bilhões arrecadados.
Parte relevante desse avanço está ligada à consolidação da nova Lei de Licitações e Contratos (Lei nº 14.133/2021), que reorganizou as garantias contratuais como instrumento de gestão de risco e reforçou o papel do seguro garantia nas contratações públicas. A norma prevê, para obras e serviços de engenharia, a possibilidade de exigência da modalidade com cláusula de retomada, pela qual a seguradora pode assumir a execução ou concluir o objeto contratado em caso de inadimplemento.
Para Guilherme Silveira, CEO da Genebra Corretora de Seguros, o principal atrativo da modalidade está na liquidez. "O principal benefício é a preservação da liquidez. Ao substituir um depósito em dinheiro ou, em muitos casos, uma fiança bancária, a empresa mantém seus recursos disponíveis para investir no próprio negócio, ampliar operações ou fortalecer seu capital de giro", afirma o executivo.
Segundo ele, sob o aspecto financeiro, isso representa uma redução importante do custo de capital, enquanto, no plano operacional, a contratação costuma ser mais simples e menos burocrática do que as garantias tradicionais.
Silveira observa ainda que a modalidade não compromete linhas de crédito bancário, o que mantém esses recursos disponíveis para atividades produtivas. O executivo relaciona o crescimento do produto a uma mudança na forma como as empresas administram capital e risco.
"Hoje, as empresas enxergam o seguro garantia não apenas como uma exigência contratual, mas como uma ferramenta estratégica de gestão financeira e de alocação eficiente de capital", diz.
Gestão de riscos e governança
A boa gestão de riscos deixou de ser uma preocupação restrita às grandes companhias e passou a integrar a estratégia de organizações de diferentes portes. Nesse contexto, de acordo com o CEO da Genebra, o seguro garantia contribui ao oferecer uma solução estruturada, regulada e transparente para o cumprimento de obrigações, com um componente de governança embutido no próprio processo de contratação.
"A emissão da apólice envolve análise técnica, avaliação de riscos e critérios de crédito, o que contribui para uma gestão mais disciplinada das obrigações assumidas pelas empresas", explica.
Na avaliação do executivo, esse processo proporciona maior previsibilidade, reduz riscos operacionais e permite que gestores tomem decisões com mais segurança, amparados por uma estrutura sólida para sustentar os compromissos assumidos. A leitura converge com o entendimento consolidado no setor de que as garantias contratuais funcionam como instrumento central de mitigação de risco, e não como mero formalismo administrativo.
Digitalização acelera a contratação
Outro fator que tem ampliado o acesso à modalidade é a tecnologia. Processos que antes exigiam troca física de documentos, análises manuais e prazos de vários dias passaram a ser realizados de forma integrada, com ganhos percebidos pelos clientes na velocidade de cotação, na emissão de apólices em prazos reduzidos, no acompanhamento digital das operações e na renovação simplificada, segundo Silveira. A integração entre plataformas, escritórios de advocacia, departamentos jurídicos e áreas financeiras, acrescenta, reduz erros operacionais e aumenta a produtividade das equipes.
A Genebra desenvolveu uma plataforma automatizada para cálculo e gestão de apólices de seguro garantia, com o objetivo de eliminar etapas que tradicionalmente consumiam tempo e recursos. "Nosso objetivo não é apenas digitalizar um processo existente, mas transformar a forma como o seguro garantia é contratado e administrado, utilizando tecnologia para gerar ganhos reais de produtividade e eficiência", revela o CEO.
Olhando adiante, Silveira projeta que a modalidade deve ocupar papel cada vez mais estratégico, com ampliação de uso em diferentes setores, maior digitalização, integração com sistemas jurídicos e financeiros e emprego crescente de inteligência artificial na análise de riscos e na subscrição.
Para o executivo, a principal oportunidade está em incorporar o seguro garantia como instrumento de otimização financeira, e não apenas como exigência contratual ou judicial, movimento capaz de melhorar indicadores, ampliar a capacidade de investimento e reforçar a competitividade das empresas.
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