O engajamento dos trabalhadores brasileiros atingiu o menor patamar desde o início da série histórica da pesquisa Engaja S/A, realizada em parceria com a FGV. Apenas 39% dos profissionais se dizem engajados, uma queda de cinco pontos percentuais em relação a 2024. O levantamento calculou, pela primeira vez, o impacto econômico do desengajamento. A combinação de turnover e presenteísmo gera perdas estimadas em R$ 77 bilhões por ano, o equivalente a cerca de 0,66% do Produto Interno Bruto (PIB).
Para Adeildo Nascimento, CEO da DHEO Consultoria e especialista em cultura organizacional, o problema vai muito além de clima ou benefícios. "Nunca antes no país tivemos um nível tão baixo de engajamento", diz.
Não é sobre clima. É estrutural
Durante anos, muitas organizações apostaram em pacotes de benefícios, ambientes agradáveis e programas de clima organizacional como solução para retenção e motivação. O modelo, segundo Adeildo, perdeu força. "Criamos empresas com bom café, bons refeitórios, benefícios competitivos e salários atrativos. Mas a relação das pessoas com o trabalho mudou drasticamente. Hoje, engajamento não nasce de conforto. Nasce de sentido e significado", afirma.
Ele destaca que clima é consequência, não causa. "O clima é um subproduto da cultura. Durante muito tempo, tratamos como se fosse o contrário. Cultura é o que sustenta — ou compromete — a performance no longo prazo", pontua. A queda contínua dos indicadores reforça essa mudança de paradigma. "Só quatro de cada dez colaboradores estão, de fato, engajados, isso afeta margem, caixa, atendimento ao cliente e competitividade. O impacto macroeconômico é grave, mas o impacto dentro da empresa pode ser devastador", acrescenta.
De competência a comportamento
Outro ponto central é a mudança de competências técnicas para comportamentos. "Competência virou commodity. Se não tem, está fora do jogo. O diferencial agora está no comportamento. É nele que a cultura se instala e que o engajamento genuíno nasce", explica.
Empresas com processos obsoletos, estruturas rígidas e práticas desumanizadas tendem a afastar as pessoas do propósito. Muitos profissionais não encontram sentido no que fazem. Sem significado, não há comprometimento. Para Adeildo, cabe ao CEO ou líder resgatar essa conexão. "Se isso não acontecer, o desengajamento se instala".
Cultura como sistema operacional
O especialista compara a cultura ao sistema operacional de uma empresa. "Se há bug no sistema, não é o clima que vai resolver. Só projetos estratégicos de cultura conseguem identificar e corrigir essas falhas". Ele reforça que o futuro do engajamento passa por uma cultura forte, coesa e coerente com a prática das lideranças. Mesmo empresas consideradas excelentes para se trabalhar estão vendo o engajamento cair. Isso é a prova de que ambiente agradável não gera comprometimento sustentável.
Para Adeildo, "cultura não é discurso. É estratégia". A pergunta que fica para o empresariado é simples e urgente. "É aceitável operar com apenas quatro em cada dez colaboradores verdadeiramente comprometidos?".
Vídeo completo no link: https://www.youtube.com/watch?v=d5gzVsEtVzY














