A recusa familiar ainda representa um dos principais obstáculos para ampliar a doação de órgãos no Brasil. Em 2025, a taxa média foi de 45% nas entrevistas realizadas com familiares de potenciais doadores, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Foram 4.200 famílias que não autorizaram a retirada dos órgãos, em um cenário de aumento no número de potenciais doadores identificados no país.
No mesmo ano, foram registradas 15.940 notificações de potenciais doadores, das quais 4.335 resultaram em doadores efetivos. A taxa chegou a 20,3 doadores por milhão de população, acima dos 19,2 registrados em 2024. Os números mostram avanço na identificação e efetivação de doadores, mas também evidenciam a distância entre o potencial de doação e a disponibilidade efetiva de órgãos para transplantes.
Para o presidente da Anadem (Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética), Raul Canal, parte do desafio está no momento em que a família é chamada a tomar uma decisão. "Não é possível esperar que uma família tome uma decisão sobre doação de órgãos se ela ainda não conseguiu compreender a morte do ente querido. A conversa sobre doação começa, na prática, muito antes do pedido de autorização", afirma.
A abordagem ocorre após a confirmação da morte encefálica, em um momento de forte impacto emocional e diante de informações técnicas difíceis de assimilar. De acordo com Canal, que também é advogado especializado em direito médico, uma comunicação inadequada pode aumentar a desconfiança e transformar uma decisão já delicada em uma experiência ainda mais difícil para os familiares.
"O profissional precisa explicar uma situação que, para muitas famílias, parece contraditória: o corpo continua apresentando sinais e recebendo cuidados, mas a pessoa morreu. Se essa informação não for compreendida, a conversa sobre doação pode começar com uma dúvida básica sobre a própria morte", explica.
A necessidade de qualificação das equipes envolvidas no processo tem levado instituições a ampliar a formação de profissionais. Entre setembro de 2025 e agosto de 2026, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), em parceria com o Ministério da Saúde, capacitou 2.534 profissionais de saúde para atuar em diferentes etapas da doação e dos transplantes, superando em 25% a meta inicial de 2 mil participantes.
Entre os capacitados estão 933 médicos, dos quais 473 receberam treinamento específico para a determinação da morte encefálica. Os demais profissionais foram capacitados em Gerenciamento no Processo de Doação e Transplante (GPDT), Comunicação em Situações Críticas (CSC), além de conteúdos relacionados à identificação e à manutenção clínica de potenciais doadores.
Para a advogada especialista em direito médico, Fabiana Attié, a preparação das equipes precisa incluir a capacidade de conduzir a conversa com os familiares sem transformar a abordagem em uma tentativa de convencimento. "A família não pode sentir que está sendo pressionada a autorizar a doação. O papel da equipe é garantir que ela tenha condições de entender o que aconteceu, quais são os procedimentos e que a decisão seja tomada de forma consciente. Quando existe confiança nessa relação, a decisão pode ser tomada com mais segurança, seja pela doação ou pela recusa", acrescenta.
Em 2025, o Brasil realizou 6.697 transplantes renais, 2.573 hepáticos, 427 cardíacos, 142 de pâncreas e 96 pulmonares. O país também registrou 17.790 transplantes de córnea. No mesmo período, a taxa de notificações de potenciais doadores chegou a 74,7 por milhão de população.
