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Uma pesquisa inédita realizada pela Vértea, braço de educação continuada do Instituto Qualisa de Gestão (IQG), revela que mais de 70% dos profissionais avaliados atuam em ambientes favoráveis ao estresse crônico. O levantamento, feito com 1.052 trabalhadores de três hospitais do Estado de São Paulo, mostra que o desgaste psicológico no trabalho é contínuo e sistêmico; resultado da forma como o trabalho está organizado, e não de fragilidades individuais.

Conduzida entre novembro e dezembro de 2025, a pesquisa utilizou o Copenhagen Psychosocial Questionnaire (CoPsoQ II-Br), um método internacionalmente reconhecido e validado, adotado em diversos países como base para políticas de saúde ocupacional. Com nível de confiança de 96%, o levantamento não avalia indivíduos, mas o funcionamento psicológico das organizações. Os nomes dos hospitais, dos respondentes e demais informações que possam revelar as suas identidades foram omitidos por razões contratuais.

Sofrimento que se organiza e se espalha

Diferentemente de diagnósticos tradicionais focados em sintomas isolados, a análise revelou um padrão sistêmico de risco. O levantamento mostra que exigências elevadas, ritmo intenso, pressão constante e ambiguidade organizacional estão fortemente conectados entre si. Esse arranjo cria um ambiente permanentemente ativador de estresse, algo contínuo.

Segundo o estudo, essas condições estruturais se associam diretamente à fadiga emocional, à exaustão e ao desgaste psicológico ao longo do tempo. "O problema não nasce no indivíduo. Ele nasce na forma como o trabalho está organizado e governado", afirma Mara Machado, presidente do Conselho da Vértea.

Falha nos fatores de proteção agrava o cenário

Um dos achados mais preocupantes é a fragilidade dos chamados fatores de proteção psicológica. Elementos como apoio, previsibilidade, confiança, senso de justiça e reconhecimento não estão funcionando como amortecedores do estresse. Na prática, isso significa que o sistema perde a sua capacidade de autorregulação emocional.

Quando esse equilíbrio se rompe, o risco deixa de ser pessoal e passa a ser organizacional. O estudo mostra que o desgaste psicológico tende a se retroalimentar: mais pressão gera mais exaustão; a exaustão reduz cooperação e tolerância; o ambiente piora e a pressão aumenta novamente.

Risco psicossocial elevado e já instalado

Com base no padrão identificado, a pesquisa classifica o cenário como risco psicossocial estrutural elevado, com baixa capacidade de contenção interna e tendência à cronificação do sofrimento se não houver intervenção nas condições de trabalho.

Embora nem todos os efeitos estejam visíveis em indicadores tradicionais, como afastamentos ou rotatividade, o padrão encontrado antecede esse tipo de desfecho. Ambientes psicologicamente pressionados tornam-se menos resilientes, mais reativos e excessivamente dependentes de esforço individual para manter o funcionamento cotidiano.

Impacto além da saúde mental

O estudo chama atenção para um ponto sensível: risco psicossocial elevado também representa risco assistencial latente. Sistemas de saúde psicologicamente sobrecarregados tendem a operar no limite, com menor margem de segurança, aprendizagem e cooperação; fatores diretamente relacionados à qualidade do cuidado. É um risco organizacional mensurável. Mesmo quando eventos adversos ainda não explodiram, o sistema já está fragilizado.

"Intervenções isoladas, focadas apenas em acolhimento individual ou capacitação, não são suficientes", alerta Mara. Os dados indicam que a mitigação do risco exige mudanças estruturais na organização do trabalho, na governança e nas condições institucionais. Mais do que um diagnóstico, o estudo representa uma ferramenta de apoio à decisão gerencial, orientando a priorização de ações sistêmicas para promover ambientes de trabalho mais saudáveis, sustentáveis e seguros.