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Ineficiência logística amplia emissões no transporte

Ineficiência logística amplia emissões no transporte
Ineficiência logística amplia emissões no transporte

Enquanto o debate sobre descarbonização do transporte no Brasil segue concentrado em eletrificação e combustíveis alternativos, uma parcela relevante das emissões do setor continua ligada a problemas básicos de eficiência operacional. Caminhões rodando vazios, longas filas para carga e descarga, congestionamentos e rotas mal planejadas aumentam diariamente o consumo de diesel e os custos logísticos do país.

O tema ganhou espaço diante da avaliação de que parte da redução de emissões no transporte pesado pode ser alcançada imediatamente, sem depender exclusivamente de mudanças tecnológicas de longo prazo.

O modal rodoviário responde por cerca de 65% da movimentação de cargas no Brasil, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT). Ao mesmo tempo, o setor concentra a maior parte das emissões do transporte nacional, reflexo direto da dependência das rodovias e da baixa eficiência operacional do sistema.

Na prática, especialistas apontam que o desperdício começa antes mesmo de o veículo entrar em circulação. Tempo excessivo parado para carregamento, retorno sem carga, manutenção inadequada, pneus desregulados e uso ineficiente das rotas fazem com que caminhões consumam mais combustível para transportar menos carga.

Um dos principais gargalos apontados pelo setor é o chamado "empty miles" ou "frete-retorno", quando caminhões circulam sem carga, sem gerar receita, mas consumindo combustível e ampliando emissões. Relatório mais recente da American Transportation Research Institute (ATRI) aponta que as viagens vazias representaram 16,7% da quilometragem total percorrida por transportadoras nos Estados Unidos em 2024, índice considerado um dos maiores fatores de desperdício operacional do transporte rodoviário, estimando emissões de cerca de 76 milhões de toneladas de CO₂ por ano.

Medidas simples de eficiência operacional, como direção econômica, roteirização inteligente, monitoramento da frota e redução do tempo parado, têm potencial para gerar economia significativa de combustível no transporte rodoviário. Ferramentas de consolidação de carga também vêm sendo utilizadas para reduzir viagens parcialmente vazias e aumentar a eficiência operacional.

Além disso, investimentos em telemetria e integração logística permitem identificar, em tempo real, excessos de marcha lenta, desvios de rota, acelerações bruscas e outros padrões de condução que aumentam o consumo de combustível.

A renovação da frota é apontada como um dos caminhos mais diretos para ganhos de eficiência e redução de emissões. Levantamento do Sindipeças referente a 2024 mostra que a proporção de caminhões com mais de 16 anos de uso passou de 22% para 32% da frota total entre 2015 e 2024, evidenciando um claro envelhecimento do parque nacional. Segundo a CNT, em 2024, cerca de 300 mil caminhões circulavam com mais de 20 anos de vida útil, enquadrados na fase P-4 do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), com limites de emissão de material particulado até 15 vezes mais elevados do que os exigidos nos modelos da fase P-8 (Euro 6).

Para a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), um motor a diesel com 30 anos de uso polui 87% mais do que um equivalente Euro 6. Além da redução de poluentes, os caminhões modernos oferecem maior capacidade de carga por quilômetro rodado, permitindo transportar mais mercadoria com menos combustível, um ganho que impacta diretamente as emissões de CO₂ por tonelada transportada. Nesse contexto, o governo federal lançou em janeiro de 2026 o programa Move Brasil, com linhas de crédito a juros reduzidos voltadas à substituição de caminhões com mais de 20 anos por modelos mais eficientes e menos poluentes.

A qualidade da infraestrutura rodoviária também compromete diretamente o consumo de combustível e as emissões do setor. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025, que avaliou mais de 114 mil quilômetros de rodovias pavimentadas, estima que a má conservação do pavimento gerou um desperdício superior a 1,2 bilhão de litros de diesel no país em 2025, com emissão correspondente de 3,17 milhões de toneladas de gases de efeito estufa, prejuízo de R$ 7,21 bilhões aos transportadores.

A pesquisa aponta ainda que o custo operacional do transporte aumenta, em média, 31,2% nas vias em condições inadequadas, reflexo direto de defeitos como trincamentos, afundamentos e perda de aderência superficial. Apesar de avanços recentes, a proporção de trechos classificados como ruins ou péssimos caiu de 26,6% para 19,1% entre 2024 e 2025. E 62% das rodovias brasileiras ainda apresentam algum tipo de problema estrutural, com impacto direto sobre emissões e competitividade logística.

Para José Eduardo Luzzi, presidente do conselho de administração do Instituto MBCBrasil, a discussão sobre descarbonização precisa incorporar medidas de aplicação imediata e alinhadas à realidade operacional brasileira.

"O Brasil discute tecnologias futuras enquanto ainda desperdiça combustível em operações ineficientes todos os dias. Existe redução de emissões disponível agora, com melhor planejamento logístico, menos ociosidade e uso mais eficiente da frota", afirma. Segundo Luzzi, parte importante do desafio climático no transporte está ligada à baixa produtividade logística do país.

"Quando um caminhão passa horas parado, roda vazio no retorno ou enfrenta congestionamentos constantes, existe um custo econômico e ambiental ao mesmo tempo. Melhorar a eficiência operacional reduz consumo de diesel, corta emissões e aumenta competitividade sem exigir mudanças imediatas de infraestrutura ou substituição completa da frota", diz.

O impacto econômico também preocupa o setor. Levantamento do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) aponta que os custos logísticos brasileiros representam cerca de 18% do Produto Interno Bruto (PIB), percentual acima da média internacional e considerado um dos entraves à competitividade da economia nacional.

Na avaliação do Instituto MBCBrasil, a descarbonização do transporte brasileiro não dependerá apenas da substituição tecnológica dos veículos, mas também da capacidade de reduzir desperdícios históricos da logística nacional. A combinação entre eficiência operacional, melhoria da infraestrutura, renovação gradual da frota e adoção de tecnologias de baixo carbono é vista como um dos caminhos para diminuir emissões e aumentar a competitividade do transporte no país.

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