O crescimento dos condomínios no Brasil tem transformado a forma de morar nas cidades e ampliado a responsabilidade sobre a gestão desses espaços coletivos. Segundo o Censo Condominial 2025/26, o setor emprega mais de 500 mil pessoas em todo o país. Minas Gerais aparece como o segundo estado com maior número de condomínios, com mais de 51 mil empreendimentos, atrás apenas de São Paulo.
Paralelamente, o perfil da administração também mudou: levantamento "Perfil do Síndico Brasileiro", realizado pelo Instituto Datafolha, aponta que 46% dos síndicos já exercem a função de forma profissional e 72% buscaram cursos de qualificação para atuar na área. Esse movimento de profissionalização tem refletido diretamente no mercado imobiliário. Mais do que localização ou tamanho, compradores e locatários passaram a observar a qualidade da gestão condominial antes de tomar uma decisão. Na avaliação de Tatiane Gomides de Moura Nunes, diretora da CMI/Secovi-MG (Câmara do Mercado Imobiliário e Sindicato da Habitação de Minas Gerais) e da imobiliária Família Nunes Imóveis, "a administração eficiente deixou de ser apenas um fator operacional e passou a influenciar o valor patrimonial dos imóveis".
Segundo ela, um condomínio com manutenção preventiva, segurança organizada e equilíbrio financeiro preserva o patrimônio coletivo, gera confiança e, na prática, já reflete no comportamento dos clientes. De acordo com a Tatiane, quem busca um imóvel avalia cada vez mais o contexto condominial antes de fechar negócio. "Hoje o comprador avalia a experiência de morar, não apenas a metragem", explica.
Na avaliação do especialista em locação de imóveis Ferlei Silva, diretor da Sonho Real Netimóveis, outro ponto essencial para quem leva em consideração o condomínio antes de fechar um negócio é a previsibilidade. Segundo ele, uma gestão eficiente é capaz de evitar despesas inesperadas por meio de planejamento financeiro adequado, além de preservar o padrão do empreendimento. "Contas organizadas, baixa inadimplência e regras claras trazem mais segurança para moradores, compradores e investidores. Soma-se a isso a qualidade de vida, impulsionada por ambientes limpos, seguros e bem organizados", pontua Silva.
O diretor acrescenta ainda que, mesmo com boas características individuais, um imóvel com gestão condominial ineficaz pode ter sua atratividade comprometida. Ele relata que, com os clientes cada vez mais criteriosos, existe uma enorme atenção para possíveis conflitos, dívidas ou obras futuras, além da reputação do condomínio junto a moradores, funcionários e vizinhança. "A organização no dia a dia, incluindo comunicação e cumprimento de regras, também é um fator relevante na decisão. Não é incomum que clientes desistam de um imóvel em função do condomínio, e não do imóvel em si", revela.
Nesse cenário, o papel do corretor também ganha nova dimensão. Mais do que apresentar unidades, o profissional atua como um intermediador de informações e expectativas. Ao explicar a saúde financeira do condomínio, as regras internas e o perfil dos moradores, ele amplia a segurança da negociação e contribui para decisões mais conscientes. Essa leitura mais ampla do imóvel, segundo a diretora Tatiane Nunes, agrega credibilidade ao processo e ajuda a alinhar expectativas entre clientes e empreendimentos.
Segundo o presidente da Netimóveis Brasil e da cooperativa de crédito Sicoob Imob, Ariano Cavalcanti, a gestão condominial também influencia diretamente a dinâmica de mercado, especialmente na liquidez dos imóveis. Segundo ele, empreendimentos com administração organizada e estrutura financeira equilibrada tendem a acelerar as negociações. "Quando o cliente percebe que o condomínio é bem administrado, com conservação adequada e fundo de reserva estruturado, ele enxerga mais segurança. Isso aumenta a liquidez e contribui para a valorização do imóvel", afirma.
Cavalcanti também chama atenção para um movimento de mudança no comportamento do consumidor, que tende a se intensificar nos próximos anos. Segundo ele, a reputação da gestão condominial já começa a ter peso comparável a atributos tradicionais como localização e preço. "As pessoas estão mais conscientes de que um condomínio bem gerido é determinante para preservar o valor do imóvel. Uma má gestão pode gerar uma desvalorização rápida e, muitas vezes, difícil de reverter", avalia.
O papel do síndico
Com a crescente valorização da importância da gestão, o desempenho do síndico se tornou peça central nesse processo. Marcela Nery, diretora da área das Administradoras de Condomínios da CMI/Secovi-MG e da Opala Administradora de Condomínios, ressalta que, além da rotina administrativa, novos desafios têm exigido planejamento mais estratégico por parte dos síndicos. Ela cita que mudanças em discussão na legislação, como os impactos da reforma tributária e a possível revisão da escala 6×1 em serviços terceirizados, podem alterar custos operacionais dos condomínios.
Nesse contexto de maior complexidade, o apoio institucional tem ganhado relevância. A área das Administradoras de Condomínios da CMI/Secovi-MG atua oferecendo capacitações, conteúdos técnicos, acompanhamento de normas e fóruns de discussão voltados à troca de experiências entre gestores. A entidade também disponibiliza modelos e manuais que ajudam a padronizar processos e reduzir riscos na administração cotidiana.
Como parte desse movimento de fortalecimento da gestão condominial, a entidade criou, neste ano, o Conselho do Síndico, iniciativa voltada à representação direta desses profissionais dentro da instituição. "Essa integração amplia o acesso a conhecimento especializado, facilita a troca de experiências reais, promove a padronização de boas práticas e oferece suporte em situações complexas", enfatiza Marcela.
Ela conta que o conselho funcionará como um canal permanente de diálogo entre síndicos e a entidade para contribuir com a construção coletiva de soluções. O grupo participará da elaboração de conteúdos, cursos e eventos, além de promover discussões temáticas sobre segurança, manutenção, finanças e inovação.













