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Empresas brasileiras sentem os impactos da crise venezuelana

Empresas brasileiras sentem os impactos da crise venezuelana
Empresas brasileiras sentem os impactos da crise venezuelana

A recente intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em Caracas, desencadeou uma onda de incertezas que altera o ambiente de negócios na América do Sul.

Segundo o Adm. Dr. Edmir Kuazaqui, coordenador do Grupo de Excelência em Relações Internacionais e Comércio Exterior – GERICE, do Conselho Regional de Administração de São Paulo – CRA-SP, os impactos para as empresas brasileiras que operam ou planejam investir na Venezuela se dividem em três dimensões:

1 – Risco de contágio e percepção de risco (custo de capital): as empresas brasileiras enfrentarão dificuldades imediatas na captação de crédito e Seguros de Crédito à Exportação (SCE). Isso se soma ao agravamento da volatilidade cambial, que encarece os insumos, de acordo com Kuazaqui.

2 – Ruptura logística e operacional: o estado de exceção e a presença militar estrangeira travam fluxos de mercadorias, especialmente nos estados de Roraima e Amazonas, que dependem do comércio fronteiriço para o abastecimento de alimentos e bens de consumo.

3 – Crise de pagamentos e inadimplência: o vácuo institucional gerado pela intervenção põe à prova a validade de contratos e o recebimento de dívidas passadas e presentes, afetando o fluxo de caixa de exportadores brasileiros, bem como das empresas venezuelanas.

Setores mais impactados

Embora a economia, em geral, seja afetada, Kuazaqui acredita que há três setores que sentirão os impactos mais intensamente. O primeiro deles é o agronegócio, devido à dependência de fertilizantes e ao encarecimento do diesel para escoamento de safra, pressionado pelos preços globais do petróleo.

O segundo setor é o de energia e combustíveis. O coordenador do GERICE explica que a flutuação do barril do Brent (petróleo extraído do Mar do Norte) atinge diretamente a Petrobras e as refinarias nacionais, impactando a inflação e os custos industriais.

Por fim, o varejo de fronteira também será afetado. "Pequenas e médias empresas do norte do Brasil perdem um de seus principais destinos de exportação direta de bens industrializados leves", analisa Kuazaqui.

Implicações geopolíticas

Além das perdas e riscos econômicos, o coordenador do GERICE ainda ressalta que, sob o ponto de vista geopolítico, o Brasil perde o papel de mediador regional clássico diante da intervenção direta dos EUA, ficando em uma posição delicada entre manter a neutralidade comercial e ceder à pressão da nova administração tutelada por Washington.

Já na percepção econômica global, a intervenção sinaliza uma nova era de "desglobalização seletiva", na qual recursos energéticos (petróleo) são assegurados por força militar, o que pode gerar represálias comerciais de blocos como o BRICS+, afetando parceiros brasileiros.

Quanto à administração dos negócios, o foco deverá ser na resiliência da cadeia de suprimentos e cadeia global de valor. "O gestor precisará mapear substitutos para insumos venezuelanos e acionar cláusulas de force majeure (força maior) para mitigar prejuízos contratuais", sugere o administrador.

Inteligência estratégica

Diante da instabilidade do país vizinho, Kuazaqui afirma que o momento exige inteligência estratégica e gestão de risco. Para ele, as organizações brasileiras não devem tratar o risco geopolítico como um "fato externo imprevisível", mas como uma variável interna do planejamento financeiro e operacional. Para potencializar a administração dos negócios, ele recomenda a implementação das seguintes estratégias:

  • Gestão de risco transversal: com comitês de gestão de crise que integrem compliance, jurídico e inteligência de mercado. "A inteligência estratégica aqui significa antecipar cenários de ‘efeito dominó’", explica o coordenador.
  • Diversificação de mercados e fornecedores: organizações resilientes evitam a dependência de um único corredor logístico. A inteligência comercial deve buscar mercados substitutos na América Latina ou África para diluir a exposição ao mercado venezuelano.
  • Compliance e relações internacionais: no curto prazo, a conformidade com as novas sanções ou diretrizes impostas pelo governo de transição (apoiado pelos EUA) é vital para evitar que empresas brasileiras sejam banidas do sistema financeiro internacional (Swift).

"A palavra de ordem é agilidade organizacional. A tomada de decisão deve ser descentralizada o suficiente para que gerentes locais tomem medidas de proteção de ativos sem esperar pela burocracia da matriz", aconselha o coordenador do GERICE.

Janela de oportunidades

Apesar da fase de incertezas, historicamente, os períodos de reconstrução institucional abrem mercados antes fechados. De acordo com Kuazaqui, a "nova Venezuela" precisará de praticamente tudo, o que configura uma janela de oportunidade para as empresas brasileiras. "Pelo fato de a Venezuela possuir as maiores reservas de petróleo do mundo, sua reintegração ao mercado global pode derrubar os preços internacionais da energia no longo prazo, o que beneficiará a indústria brasileira como um todo", explica.

Dentre as áreas que podem ser mais demandadas nessa fase estão a infraestrutura e a engenharia, para a reconstrução de refinarias, estradas e redes elétricas. "Empresas brasileiras de engenharia pesada podem retomar o protagonismo técnico na região."

Outro setor é o de agronegócio e alimentos, com o fornecimento imediato de proteínas animais, grãos e tecnologia agrícola, dada a severidade do desabastecimento. E, ainda, há espaço para o setor de energia e biocombustíveis. Para Kuazaqui, a expertise brasileira em biocombustíveis e exploração de petróleo em águas profundas pode ser exportada para modernizar a infraestrutura energética venezuelana.

"Se o Brasil souber se posicionar como um ‘parceiro de reconstrução’ (não interventor), poderá garantir contratos de longo prazo em troca de auxílio humanitário e técnico. A complexidade da situação exige do administrador uma visão sistêmica sobre a interdependência entre política e negócios para equilibrar forças, fraquezas, ameaças e oportunidades originadas dos ambientes geopolíticos, econômicos e legais", conclui Kuazaqui.

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