A comunicação digital deixou de ser apenas vitrine: hoje, ela é infraestrutura de trabalho, mobilização e geração de renda. Em São Paulo, onde milhares de iniciativas comunitárias e empreendimentos coletivos dependem da visibilidade nas redes para existir e crescer, a falta de formação técnica ainda é uma barreira concreta. É nesse contexto que nasce o Rede Formação Digital, novo programa de capacitação prática voltado a lideranças comunitárias, coletivos, cooperativas e microempreendedores ligados à Economia Social e Solidária. A iniciativa é executada pelo Instituto de Pesquisa em Comunicação e Políticas Públicas para a Mudança Social (C4C), em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Organizado em duas etapas, o projeto oferece 50 vagas gratuitas distribuídas entre as cinco macrorregiões da cidade de São Paulo. Além da formação, cada participante recebe auxílio de custo mensal durante a etapa presencial, além de auxílio-transporte, o que Patrícia Gil, diretora-presidente do Instituto C4C, entende como "uma forma de garantir condições de permanência ao longo dos seis meses de aulas semanais".
O programa foi estruturado para responder a um problema que afeta grande parte dos micro, pequenos e médios empreendimentos no Brasil, assim como organizações de economia social e solidária: a dificuldade de transformar iniciativas locais em operações sustentáveis e visíveis no ambiente digital. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) indicam que uma parcela relevante dos pequenos negócios encerra atividades nos primeiros anos por fragilidades de planejamento, gestão e estratégia de mercado, incluindo comunicação e relacionamento com públicos de interesse. Estudos sobre marketing e desempenho empresarial também apontam que estratégias consistentes de comunicação e fortalecimento de vínculos com públicos e comunidades estão entre os fatores associados a melhores resultados de continuidade e crescimento.
No campo da economia criativa e da produção de conteúdo — especialmente em iniciativas ligadas à diversidade, às periferias urbanas e a projetos comunitários — o avanço no uso da comunicação digital como ferramenta de geração de renda ainda enfrenta barreiras estruturais. Levantamento com criadores de conteúdo aponta que, embora a maioria pretenda seguir atuando no ambiente digital, mais da metade ainda depende de outra fonte de renda, o que indica dificuldade de monetização, acesso a oportunidades e profissionalização da atividade. Os dados constam na pesquisa Creator POV 2025, realizada pela BrandLovers com mais de dois mil criadores de conteúdo no Brasil. O cenário reforça a demanda por formação técnica e estratégica para uso planejado das plataformas digitais.
A formação é dividida em duas fases. A primeira inclui seis meses de aulas presenciais semanais, totalizando 96 horas. Ao final desse período, os participantes devem apresentar projetos próprios de fortalecimento das organizações de ESS em que participam ou propostas de criação de novas instituições com esse tipo de atuação. A segunda fase vai selecionar os dez participantes com melhores projetos para três meses adicionais de tutorias individuais on-line, com bolsa de estudo mensal, voltadas à implementação dos projetos desenvolvidos ao longo do curso.
Os conteúdos percorrem desde fundamentos das plataformas digitais, preceitos éticos, saúde mental nas redes e até práticas avançadas de produção de conteúdos. Os módulos incluem funcionamento de redes sociais, marketing digital aplicado a iniciativas comunitárias, planejamento de conteúdo, roteiro e produção audiovisual com celular, edição de vídeo e imagem, web design básico, métricas, algoritmos, inteligência artificial aplicada à criação, reputação digital, gestão de crises, direitos autorais e sustentabilidade de projetos coletivos.
Segundo Patrícia, o projeto nasce de uma convergência entre pesquisa, prática e compromisso público. "Trabalhamos com comunicação aplicada a políticas públicas e impacto social. Ver a Rede Formação Digital ganhar forma, com apoio governamental por meio do Ministério do Trabalho e Emprego, é o reconhecimento da importância da comunicação direcionada para iniciativas de fortalecimento comunitário. É uma iniciativa que transforma conhecimento técnico em oportunidade concreta para quem já faz a diferença em seus territórios", afirma.
A diretora-adjunta do Instituto, Cicélia Pincer, destaca o rigor pedagógico do programa. "O curso foi desenhado com estrutura, progressão de conteúdo e acompanhamento próximo. Não é uma oficina pontual. É uma formação completa, com prática orientada, critérios claros e seriedade na execução. O objetivo é que cada participante saia com capacidade real de planejar, produzir e sustentar seu projeto a partir de uma comunicação digital ética e consistente".
Podem se inscrever moradores da cidade de São Paulo, maiores de 18 anos, com renda familiar de até dois salários mínimos, que atuem ou queiram atuar em iniciativas coletivas, redes, associações ou empreendimentos da Economia Social e Solidária. O processo seletivo inclui formulário on-line, envio de documentos e um vídeo curto de apresentação. As vagas são distribuídas de forma equitativa por região da capital — Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro. As aulas presenciais ocorrerão aos sábados, em espaços nas próprias regiões dos participantes.
As inscrições estão abertas pelo site oficial do programa, onde também estão disponíveis o edital completo da seleção e as orientações para a candidatura.
